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Preconceito, sempre dói



14 último, o Clube de Leitura da AVL discutiu, em reunião online, a obra “O olho mais azul”, da escritora americana Toni Morrison. Foi o primeiro romance da autora, lançado em 1970; não foi bem avaliado a princípio, tornando-se, depois, um best-seller.


A autora foi a primeira negra a receber o Prêmio Nobel de Literatura, em 1993. A obra em questão pode ser considerada um manifesto sobre raça, gênero e beleza da mulher negra, e narra, de forma impactante, a história de Pecola Breedlove, uma menina negra discriminada em sua comunidade, na escola e na própria família.


Devido à pele muito escura e cabelos muito crespos é negligenciada pelas outras crianças negras e também pelos adultos, por isso sonha em ter olhos azuis como os das mulheres brancas, acreditando que esse detalhe a tornaria aceita.


Sendo também negra, a autora evidencia o sentimento que o preconceito pode provocar em uma menina negra, “a mais vulnerável das criaturas”. Na verdade, Pecola sente-se discriminada pela cor e pela feiura. Por isso o desejo de ter olhos azuis.


A obra não é uma leitura confortável, pelo contrário, é angustiante, pesada e instigante. Em um dos primeiros parágrafos, pistas apontam para a gravidez de Pecola, que mais adiante se constata ter sido vítima do próprio pai, o que se agrava pela incompreensão da mãe que a culpa pelo acontecido. A descrição da cena do estupro, a desfaçatez e a naturalidade do pai são chocantes e provocam repúdio nos leitores mais sensíveis.


Escrito na década de 1960, período do movimento dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos, a autora critica as consequências da escravidão e as discriminações que os negros ainda sofriam. A obra enfoca também a questão do tom de pele; Maureen, uma colega de escola, é considerada mais bonita por ter a pele mais clara, turbinada pela situação econômica mais confortável. A protagonista, é filha de uma família extremamente pobre e com sérios problemas de auto-estima, cuja mãe prefere estar com os filhos da família para quem trabalha do que com os próprios filhos.


Ao ter acesso ao passado dos pais de Pecola, o leitor percebe que vários  acontecimentos colaboraram para um modelo de família extremamente problemático, porque baseado em abandonos, alcoolismo e violência doméstica. Mas a autora não os exime de suas responsabilidades e mesmo entendendo que são vítimas de um sistema opressor, não os trata com benevolência, aponta as suas fraquezas e erros, por mais perversos que sejam, evidenciando essa cadeia de causa e consequência de que não “conseguem” fugir.


Na escola, Pecola era vítima de insultos oriundos das outras crianças negras: “Preta retinta. Seu pai dorme pelado. Preta retinta, seu pai dorme pelado”. Conforme a autora, “eram versos compostos de questões sobre as quais a vítima não exercia controle: a cor de sua pele e os hábitos do pai.” O fato de os insultos virem de crianças também negras com pais com os mesmos hábitos, evidencia o desprezo que sentiam pela própria negritude, o ódio por si mesmos dolorosamente aprendido e a desesperança concebida desde sempre. Essas crianças extravasavam as dores que também as consumiam. Penalizavam a vítima, como uma catarse necessária.


Historicamente sabe-se que a questão da auto-aceitação constitui um entrave à felicidade: ter a pele mais clara, cabelos lisos e por que não, olhos azuis? A não representatividade e desrespeito machucam e impactam Pecolas pelo mundo todo.


“O olho mais azul” é uma obra para leitores capazes de digerir os acontecimentos e ações dos personagens, que consigam se reconhecer em situações incontroláveis, que tenham condições de questionar os padrões impostos pela sociedade, que consigam ter distanciamento para refletir sobre o racismo e suas consequências e principalmente, consigam sentir empatia, para se colocar na “pele” alheia e ser mais humano, compreensivo e tolerante  independente da raça ou etnia das pessoas que porventura cruzarem sua estrada. Leitura indispensável!


“É sempre preciso ler e reler os livros de Toni Morrison. Todos eles são transcendentais. Você vai me agradecer depois da leitura”. (Barack Obama)


(*) Aldora Maia Veríssimo – Presidente da AVL

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