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Questão de sorte


De longe parecia um monumento de mulher, vestida com minissaia de couro preta, collant vermelho lhe realçando o busto, 1,68 metros de altura, cabelos encaracolados sobre o pescoço, sapatos de salto e bolsa tipo mochila. A chuva da tarde lhe caíra em cima e os cabelos encaracolados pingavam sobre a roupa e se refletiam no asfalto molhado à sua frente dando a impressão de que pequenas lâmpadas brilhantes, rubis, lhe enfeitavam o rosto e o corpo esguio. De perto já não era tão linda! Olhos levemente esbugalhados, pele do rosto com acnes e, principalmente, falha em dente incisivo mostravam que, embora com pouca idade, a moça era vivida. Mas tinha um brilho especial no olhar e um trejeito maroto que a tornavam simpática e, por quem não dizer, atraente. Lucinha era assim, meio menina, meio mulher, gostosa, atrevida, sacana, putinha dessas da beira do asfalto que ficam nos postos de combustível pegando carona com os carreteiros e vendendo sexo por qualquer 10 reais. Tinha 17 anos mas o rosto velhaco lhe dava mais idade. Também tinha experiência de mulher velha, de puta escolada, pois desde os 13 já frequentava a estrada e a vida de biscate.


Sorte era coisa que não conhecia. Filha de uma marafona loira, logo foi abandonada pela mãe que se bandeou para os lados do Paraguai para viver num bordel de luxo deixando-a aos cuidados do pai, um peão de rodeio cuja maior virtude era ter permanecido por oito segundos em cima de um cavalo mesmo caindo de bêbado, cachaçudo demais, o que lhe valeu o apelido de ‘Tião cachaça’. O pai a via uma vez ou outra, ao chegar dos rodeios ou quando se curava da carraspana, passando longos dias na cama vomitando e vendo bichos pelas paredes, sinais precoces do delírio que o matou. Velho bêbado e safado... Adorava ficar bulindo nas coxas de Lucinha assim que os bichos da parede o deixavam em paz. Foi numa dessas vezes, quando mexia com a menina que o velho, talvez delirando talvez não, teve a ideia de manda-la para a prostituição - assim, quem sabe, sobrava-lhe algum para a cachaça - e pensando nisso, levou a guria para a casa da Dalva, rainha da ‘zona’, com casa frequentada só por doutor. Pronto! A sorte de Lucinha estava lançada... De dia lavava, passava, arrumava todo o bordel, servia de chacota para as mais velhas, pois ‘nem peitos direito tinha’ e, a noite, sentindo-se sempre e de cada vez deflorada servia aos fregueses da birosca; dinheiro não via - o que ganhava o velho passava para buscar quase todos os dias - , porém "sorte e destino parece que andam atrelados" um dia um canivete pontiagudo , um momento de raiva incontida, um tapão no rosto, incisivo quebrado e muito sangue jorrando da jugular do sacana a levaram diretamente para a Febem onde permaneceu por quase 2 anos, faturou uma tatuagem de sereia na coxa esquerda, aprendeu a fumar maconha e outros “bichos”, a abrir uma porta com uma “mixa” e a fazer uma “suruba” campeã!


Agora, depois desses anos, livre, solta pelas estradas, servindo aos caminhoneiros, viajando por esses “brasis”, Lucinha pensa que sua sorte mudou! O motivo é Anderson, gaúcho de olhos verdes e cabelos loiros, piá bom de trato, carinhoso, maneiro, gentil mesmo, que conheceu em Feira de Santana e com quem viveu um amor quente como chimarrão na boleia do “Scania” vermelho placa de Bagé. Depois que conheceu Anderson Lucinha mudou! Ficou mais comedida, mais gentil, mais fina... Parou de roubar os incautos caminhoneiros quando dormiam, deixou o “baseado”, passou a acreditar que a vida podia mudar, podia ser melhor...acreditou que podia ter melhor sorte!


Absorta em seus pensamentos a menina sequer percebeu que a chuva que amainara um pouco começava a voltar com mais intensidade. Olha para o relógio e ansiosamente para a estrada e eis que, pelo meio da cerração causada pelo aguaceiro, surge o “Scania” vermelho com o adesivo de Cristo bem no meio do para-brisa, lindo de morrer! E, mais lindo ainda, o gaúcho sorrindo e buzinando para ela! Nem bem parou a carreta e, de um pulo, já está na boleia pendurada ao pescoço do amor de sua vida, quase sem fôlego engolindo seus lábios com a boca sedenta. Vão juntos para Coxim e o vanerão que “roda” no toca, fitas penetra em sua alma, inebria seu coração e a faz chorar... Agora , pela primeira vez em sua existência, Lucinha chora de alegria!


Felicidade ímpar! Paixão incontrolável! Abençoada sorte que lhe colocou na vida a presença daquele homem! E então, surpresa, recebe dele uma caixa grande com papel rosa e fita de crepom, presente de aniversário. Abre a caixa rasgando o papel, arrancando a fita e grita de alegria ao segurar entre os braços o seu grande sonho, uma boneca com linda cabeleira loira e com olhos verdes como esmeraldas! É demais! Muita emoção! De um lance atira-se ao pescoço do amado e o puxa para si para beijá-lo... Asfalto molhado, ponte estreita pela frente, derrapa a carreta e, como um raio, como um “pingo” galopando pelos pampas, se projeta na escuridão e mergulha nas águas do rio Paraná.


Dizem, sei lá, que encontraram Lucinha três dias mais tarde perto de Guaíra; toda inchada, desfigurada, mas, junto ao peito, entre as mãos crispadas, uma linda boneca loira!


OS: Conto classificado entre os cinco melhores do Estado em 2011, no concurso Mapa Cultural Paulista, da Secretaria Estadual de Cultura


(*) O autor é médico e membro da Academia Venceslauense de Letras

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