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Transplante split: fígado dividido em dois salva crianças em São Paulo

Com Uol

6h36

O telefone de Maiara Pimenta dos Santos toca. Ela acaba de chegar ao trabalho, no centro da capital paulista. Do outro lado da linha, há urgência: um fígado compatível com a filha dela, Esther, 2, está disponível. É preciso correr para o Hospital Municipal Infantil Menino Jesus, a quatro quilômetros dali.

Maiara avisa a mãe dela, que está em casa com a pequena em região próxima, e as duas se encontram para seguirem juntas. O marido, que estava trabalhando perto do hospital, também é acionado.


7h

A família de Diego, 12, recebe o mesmo telefonema. Um fígado está disponível para transplante após seis anos na fila de espera.


Um misto de esperança e medo da frustração toma conta dos pais do garoto. É que 11 meses antes, eles tinham vivido aquele momento. Mas, ao chegar para a cirurgia, o órgão não pôde ser usado, pois a pessoa doadora havia testado positivo para covid-19.


Foi uma correria grande para sair de Limeira, interior de São Paulo, até o Hospital Municipal Infantil Menino Jesus —uma viagem de cerca de 160 km.


11h

Após realizar exames, Esther chega para ser internada no Hospital Sírio-Libanês, onde a cirurgia de transplante será feita. Enquanto isso, Diego e a família chegam ao Menino Jesus, para fazer exames pré-operatórios. Às 12h, ele é internado também no Sírio-Libanês.


14h

O garoto é levado para o centro cirúrgico, de onde volta depois de 11 horas e 40 minutos com um fígado novo.


15h

Esther entra na sala de cirurgia e é anestesiada. Por volta de meia-noite, a menina retorna para o quarto junto à família com o novo órgão.


Histórias que se cruzam

De janeiro a junho deste ano, o Brasil realizou 1.103 transplantes de fígado, segundo a ABTO (Associação Brasileira de Transplante de Órgãos).


Entre tantos, as histórias de Esther e Diego se conectam além dos procedimentos que ocorreram no mesmo dia e no mesmo hospital.


Um único fígado doado foi dividido em dois para beneficiar as duas crianças. A técnica é conhecida por split (dividir, em português).


Na fila única de transplantes, a ordem segue critérios como gravidade do caso, e crianças têm prioridade. Quando o órgão foi autorizado para doação, a equipe do cirurgião Eduardo Antunes da Fonseca, do Hospital Sírio-Libanês, foi contatada com a oferta, pois Esther estava na primeira posição.


Logo, os médicos viram que o fígado atendia aos critérios para split e a porção menor, cerca de 35% do volume total, seria destinado à menina. O outro segmento do órgão iria para a segunda pessoa da fila que fosse compatível.


Coincidentemente, era Diego, atendido pela mesma equipe. "A ordem da lista de espera é sempre respeitada", reforça Fonseca.


Transplante split de fígado


A distribuição anatômica vascular do fígado permite que ele seja dividido em duas porções que mantêm, cada uma, suas funções normalmente.


Com capacidade regenerativa, um pedaço do órgão cresce até o tamanho ideal no corpo.


A técnica de divisão aumenta a disponibilidade para uma fila que, atualmente, tem 1.343 pessoas à espera de um fígado.


Os critérios para a técnica são, basicamente, ter um doador adulto de até 40 anos com fígado em boas condições clínicas.


Não adianta fazer a bipartição de um fígado não tão bom que poderia ser usado inteiro em duas metades ruins.Eduardo Antunes da Fonseca, cirurgião do aparelho digestivo no Hospital Sírio-Libanês


Em boas condições, o órgão é destinado a pacientes com maior risco de mortalidade, segundo a classificação da lista de espera.


O fígado pode ser dividido em duas metades desiguais ou iguais em tamanho (no último caso, pode beneficiar dois adultos).


No caso de Esther e Diego, a porção menor foi para a menina, mais nova, e a maior foi para o garoto, conforme necessidade de cada um.


A coincidência de ambos estarem sob os cuidados da mesma equipe médica facilitou a logística e o rápido uso do fígado, que resiste até dez horas fora do corpo.


Seguindo os critérios para a técnica, Fonseca diz que os resultados da técnica split são os mesmos de um transplante de fígado inteiro.


O risco, porém, é maior na divisão por questões técnicas, pelas pequenas estruturas que precisam ser reconstruídas, ligando o órgão novo ao corpo da pessoa.

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