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Vocação


Os olhos verdes me fitaram suplicantes...Ela era uma menina; não podia ter mais que 16 anos. Havia mais de 9 horas que se encontrava em trabalho de parto e, eu, no quinto ano da faculdade de medicina, começava naquele momento meu plantão, no internato, no velho hospital “Vitor do Amaral” naquela fria manhã de Julho em Curitiba. Não sabia ainda que direção tomar, qual especialidade iria fazer ao terminar a faculdade, mas estava pensando seriamente em fazer clínica médica e, portanto, aquele plantão estava fazendo como parte do currículo escolar. Examinei a garota e senti que já havia dilatação do seu colo uterino mas meu toque mostrou que o bebê estava sentado e percebi que, provavelmente, ele não nasceria com facilidade. Conversei com a paciente e ela, sofrendo as dores do trabalho de parto, me pediu ajuda e sua súplica foi tão intensa que, sensibilizado, procurei o preceptor que estava com os alunos solicitando sua intervenção. O doutor Haroldo me ouviu com atenção, olhou o prontuário da menina e foi comigo à sala de parto para examina-la. Ali constatou que ela necessitava de uma cesárea e me chamou para ajudá-lo. Naquele momento num misto de alegria e ansiedade me preparei para entrar na cirurgia pedindo a Deus que tudo corresse bem. Foi a primeira vez que participei do nascimento de um bebê! A cesárea foi perfeita. Doutor Haroldo era exímio obstetra e após a cirurgia fui visitar a paciente que já estava com o nascituro no seio iniciando a amamentação. Ela mostrava uma alegria tão intensa e tão completa, me abraçou com tanto carinho e, me olhando nos olhos, me agradeceu com tanta alegria e sinceridade que sua atitude tocou meu coração e envolveu completamente meu ser. Naquele momento, naquela manhã fria do inverno curitibano, sentindo no mais profundo do meu ser aquela emoção gratificante que se estabelecia no vagido daquele bebê percebi de maneira insofismável que encontrara a minha vocação. Seria obstetra e teria pelo resto de minha vida profissional a missão de trazer ao mundo os filhos das mulheres que me procurassem e entregassem para meu mister suas vidas e a de seus bens mais preciosos, seus filhos!


Os anos passaram céleres e hoje, após quase 50 anos de plena atividade e mais de 16000 nascimentos em meu currículo, sinto a mesma emoção gratificante, a mesma alegria completa, cada vez que pelas minhas mãos trago ao mundo um novo ser humano. Naquele momento a vida se renova em mim e agradeço a Deus este maravilhoso privilégio que me concedeu quando, ainda tão jovem, naquela manhã, na velha maternidade, encontrei a minha vocação e tracei o meu destino! Lógico que nem tudo foi alegria...Também tive momentos de profunda agonia e tristeza ao ver um bebê nascer mal formado ou mesmo em óbito. Clamei muitas vezes, de joelhos, a Deus que me orientasse em momentos extremamente difíceis como a perda de uma mãe, de um bebê e até dos dois juntos. Chorei e me penitenciei pelas minhas falhas (sou um ser humano!) e muitas vezes, esmorecido pela incompreensão de tantos, pensei em parar a minha caminhada, mas uma força muito maior, um amor incomensurável, brota em meu coração cada vez que pego em meus braços um novo ser que, naquele momento, significa para mim uma extraordinária vitória, uma benção do Pai Celestial!


Assim, voltando meus olhos para o céu, eternamente agradecido, humildemente peço a Deus que continue me abençoando e que, aos 73 anos, eu continue com saúde e trabalho realizando esta atividade que é a minha vocação.


(*) O autor é médico e membro da Academia Venceslauense de Letras

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