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Dostoiévski e ‘O eterno marido’

Atualizado: 20 de jun. de 2023



Fiódor Dostoiévski, escritor russo, nasceu em 11 de novembro de 1821, em Moscou. Três anos após o sucesso de seu primeiro livro “Gente pobre’, publicado em 1846, foi preso, por questões políticas, e condenado à morte. Porém a sentença foi revogada e o autor foi condenado a realizar trabalhos forçados, durante quatro anos, em uma prisão na Sibéria. Morreu em 9 de fevereiro de 1881, aos 60 anos, em São Petersburgo.


Suas obras pertencem ao realismo russo e apresentam características como: crítica sociopolítica, análise psicológica, monólogo interior, conservadorismo, nacionalismo, prolixidade, descritivismo, personagens marginalizados, ausência de idealizações e profundidade filosófica, trazendo à tona elementos profundos da alma humana. “O Eterno Marido” é uma pequena obra-prima de  Dostoiévski, escrita em 1870, em plena maturidade do autor. Objeto de apreciação de nosso Clube de Leitura.


A história narra o reencontro do marido Pável Pavlovitch com Vieltchâninov, ex-amante de sua falecida mulher. Nesse reencontro, eles relembram do passado e vivem momentos de emoções contraditórias. A narrativa é pesada mas tem toques de humor negro, comuns na obra de Dostoiévski, passando por temas como moralidade, amor erótico, tortura mental e neurose. É considerada uma das criações mais  perfeitas do autor, com uma veia humorística afiada e uma compreensão profunda do trágico e do cômico.


Alexei Ivanovich ou Veltchaninov é um homem de quase 40 anos, que está em um momento delicado de sua vida e começa a se sentir perseguido por um desconhecido de chapéu com uma faixa preta de luto. Ao longo dos capítulos, descobrimos que seu perseguidor é na verdade Pável Pavlovitch, um conhecido do protagonista e que não se veem há 9 anos.

Pável está de luto pela morte da esposa a quem venerava e que lhe deixou uma caixinha com todas as cartas de amor que trocara com seus amantes. Alexei, que fora amante de Natália, a esposa de Pável, fica desconcertado e não entende por que o homem o procura; descobre que ele está hospedado em um hotel com uma suposta filha.


Em meio a muitos encontros e conversas, algo preocupa o antigo amante: teria Pável descoberto a traição da esposa? Caso sim, por que teria se aproximado dele? Estaria planejando alguma vingança? Ora pensava que sim, ora pensava que não. Não era Pável, apenas, um “eterno marido”, a quem Veltchanínov traía sem nenhum remorso?


De permeio, Pável trouxera Liza, sua filha de oito anos, uma linda e assustada menina que, aparentemente, parecia sofrer nas mãos do pai. Quando Veltchanínov  conhece a menina faz alguns cálculos e pensa na possibilidade dela ser sua filha. Temendo uma possível vingança, a relação de ambos oscila do elogio às farpas; da tranquilidade ao constrangimento, da dissimulação à expressão clara e sincera, da consonância ao antagonismo, do amor ao ódio. Palavras, gestos e comportamentos subentendidos, às vezes cômicos, às vezes receosos, se traduzem em diálogos primorosos.


“O eterno marido” conforme Dostoiévski, é aquele cujo papel é de mero ornamento social, aquele que nasce para levar chifres, cumprir sua posição de homem, deixando que sua companheira cumpra sua posição contraventora em parceria com eternos amantes.


A relação dúbia dos protagonistas, os receios, a falsidade ou amabilidade, e os desejos inconfessáveis e subentendidos  configuram a construção de personagens complexos, com profundidade psicológica típicos da obra de Dostoiévski. Entendê-los é tarefa árdua; é necessário ler, refletir para então  digerir.


Como leitora assídua, ouso dizer que minha expectativa em relação ao autor não foi exatamente satisfeita. Vale a sua leitura e a sua visão!


“Vida e mentira são sinônimos”. (Fiodor Dostoiévski)


(*) Aldora Maia Veríssimo – Presidente da AVL

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