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Pai, começa o começo

Atualizado: 21 de jun. de 2023



Esta semana, li um pequeno texto no Facebook, cujo título era “Pai, começa o começo”. O texto fala de um filho que sempre que vai comer uma tangerina pede ao pai que “comece o começo”, ou seja, que arranque o primeiro pedaço da casca da fruta, que sempre é o mais difícil.


Minha idade e minhas vivências estão sempre a me fazer retroceder no tempo ao encontro de minhas mais queridas lembranças. Lembrei-me de ter vivido esta mesma situação inúmeras vezes. Também pedia a meu pai que “começasse o começo” das frutas que eu queria degustar. Era dar o primeiro furo na casca da fruta para eu continuar depois. Incomodava-me enterrar a unha na casca sumarenta da fruta, daí o pedido.


Foi impossível não fazer ilações sobre esse fato tão comum na minha vida. Comecei a pensar nos “começos” que meu pai me proporcionou. Foi ele que me ensinou, pelo exemplo, a ser honesta e responsável no trabalho e fazê-lo da melhor forma possível. Sua ida diária ao armazém, sempre sorridente e elogiado pelos clientes forjaram em mim a capacidade de trabalho, que me levou a ser professora durante 50 anos, sem me utilizar de licenças–saúde falsas e pouquíssimos abonos de faltas, embora fosse um direito trabalhista.


Foi ele que me levou a introjetar desde muito cedo que ser educada, polida e discreta com as pessoas me garantiria um maior acesso às estratégias para sanar minhas necessidades, já que é difícil dizer “não” quando a reivindicação é pautada no direito e a solicitação é pautada na educação.


Foi ele, que com seu jeito calado, me ensinou a ser bastante observadora e só falar quando a certeza fosse inabalável e a mensagem necessária. Para ele era “melhor passar-se por tolo do que por esperto demais”. Menos é mais, já me informava meu pai, ainda que metaforicamente. Isso configurou-se um traço em minha personalidade: quanto mais importante é a situação, menos eu falo, mais eu observo, não me atrevo a falar do que não tenho plena certeza.


Foi meu pai que pelo respeito direcionado a quaisquer pessoas, independente da classe social ou situação econômica, me ensinou a fazer o mesmo; valorizar as pessoas pelo que são e não pelo que aparentam. Ensinou-me, na prática, que se deve valorizar a “essência e não a aparência”. Dizia ele ser muito comum “por fora bela viola, por dentro pão bolorento”.


Foi meu pai, desde muito cedo, que me incutiu o conceito de “primeiro a obrigação e depois a devoção”. Não aceitava fanatismo religioso, acreditava ser o lar nosso primeiro e mais importante templo para se exercer o respeito a Deus e amor ao próximo. Dizia ele, não adianta ir à igreja e bater no peito e manter o coração cheio de amargor, revolta e inimizades.


Foi ele que me ensinou a “não tomar o que não fosse meu”. O cuidado que deveríamos ter com nossos pertences, principalmente material escolar, com a certeza da devolução ao dono, seguido de um justo castigo, caso houvesse alguma apropriação indevida. O respeito ao que é dos outros e o cuidado com o que é meu, foi meu pai que me ensinou.


O conceito de hierarquia, o dever e os direitos de cada um, o respeito e o amor devido a cada componente da família, foi meu pai que me ensinou. Nossos laços sanguíneos justificavam nosso amor e cuidado mútuos. Ninguém gosta mais de nós do que os nossos familiares. À família, nosso amor, respeito, consideração em qualquer situação ou dificuldade.


Em meio ao cenário político contemporâneo soa-me vergonhoso sentir respeito a quase totalidade dos políticos. Mas, para meu pai, as autoridades políticas mereciam nosso respeito incondicional. Admirava, grandemente, Jânio Quadros, Coronel Garrastazu Médici, entre outros. Se cometiam falcatruas e roubos, nem assim, meu pai os desrespeitava. Acreditávamos que essa postura era fruto de sua educação lusa.


Enfim, “começando o começo” do meu repertório moral e ético, acredito que meu pai cumpriu sua missão, de tal maneira que, independente do tempo passado desde a sua perda, ainda hoje, estabeleço relações de minhas concepções com os ensinamentos de meu pai. E reverbera em meu coração o carinho, o respeito e o orgulho pela incrível progênie que me trouxe ao mundo.


“Na educação das crianças, as atitudes dos pais, ensinam muito mais do que palavras”. (Autoria anônima)


(*) Aldora Maia Veríssimo – Presidente da AVL

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