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Traduzir-se

Atualizado: 21 de jun. de 2023



Acredito que já vivi bastante. Já vi e acompanhei inúmeras alterações sociais, políticas, urbanas, educacionais e morais. Mas, às vezes, me pergunto: Afinal, quem sou eu?


Ferreira Gullar, poeta brasileiro que me perdoe, mas ‘traduzir-se” não é tão fácil como dizem seus versos em seu belíssimo poema homônimo.


Nasci na zona rural, a filha mais nova de uma família portuguesa com certeza. Pai lavrador, mãe semialfabetizada e ‘do lar’. ‘Menina mulher’ em tempos idos seria criada para: cozinhar, lavar, passar e bordar. Mas não foi assim. Sei cozinhar muito pouco, não sei harmonizar temperos; não lavo roupa, é a máquina que as lava, e eu agradeço a Deus por essa tecnologia tão importante para as donas de casa. Passo roupa muito bem quando não estou com preguiça, senão, como dizia minha saudosa mãe, apenas ‘mostro-lhes o ferro’.


Bordei, fiz tricô e crochê apenas enquanto estudava no Curso Normal, graças ao empenho e rigidez da maravilhosa professora Marlene Minzoni.


Algumas das caracterizações do poema de Gullar me servem: uma parte de mim quer ‘estar entre a multidão’, outra parte prefere ‘a solidão’. Às vezes, penso e pondero, outras vezes deixo-me levar pelas ilusões.


Quem me conhece percebe que uma parte de mim ‘é permanente’ e previsível: o profissionalismo, a dedicação, a seriedade, a honestidade, a honra; mas minha parte mais doce e passional ‘sabe-se de repente’: minha profunda insegurança e timidez, minhas emoções que se traduzem em lágrimas que não me incomodo de expor, minha terrível intolerância pelas perdas cujo sofrimento me consome por muito tempo. Uma parte de mim está em harmonia com todo mundo: na simplicidade, na tolerância, na alegria e no riso sem motivo; outra parte de mim, muitas vezes se sente uma ‘estranha no ninho’ quando se defronta com pensamentos e posturas que me parecem descartáveis e vejo pessoas, a quem admiro pela inteligência e perspicácia, envoltas em afirmações que ferem, que contradizem, que desconhecem e compartilham sem filtro.


Em meus longos anos de vida, pouquíssimas vezes me deixei levar pela vertigem das emoções, embora reconheço senti-las como um magma efervescente. Pelo contrário, como Clarice Lispector, sei que ‘a palavra é meu domínio sobre o mundo’. E escolher a palavra certa ou errada demanda conhecimento e controle da situação. Isso é racional e com isso me identifico.


Mas, em contrapartida acho que não tenho vivido em vão. Professora desde sempre, encontro ex alunos nos lugares mais impensados: bancos, escritórios, empreendedores, policiais, agentes de segurança, casados, com filhos, e é sempre muito emocionante quando os revejo e percebo que me reconhecem.


Em escolas de Presidente Venceslau e região, há um batalhão de professores egressos da antiga FAFIPREVE e que, portanto, foram meus alunos e dedicam-se ao Magistério com o carinho e competência necessários. E as redes sociais nos reaproximam; posso ser localizada e localizá-los até no exterior.


Tenho um casamento feliz, um casal de filhos, nora e genro maravilhosos e como convém a uma senhorinha da minha idade já tenho netos: Daniel, Bruno e Theo, meus mais recentes amores, que me incitam, pasmem!, a cantar, dançar, pular, jogar bola (meu chutão é famoso!) e sentar no chão. Com eles perco meu autocontrole, perco a timidez, perco a autocensura e faço coisas que espantam a quem me conhece. Mas, em compensação, brindam-me com belíssimos sorrisos, com afagos durante o tempo em que estão no colinho da vovó, e com espertezas que me orgulham e a cada dia minha cumplicidade e meu amor por eles só aumenta e transborda.


Normalmente sou mansa e suave capaz de apreciar o canto dos pássaros, a beleza das flores, o sol brilhante e o céu azul anil; mas também viro bicho e fico agressiva quando minhas convicções mais profundas são atacadas: reajo quando desmerecem meus filhos, detesto discriminação e falsidade, não gosto de grosserias, não suporto descaso com o próximo, sangro quando o assunto é educação de qualidade. Tenho valores inquebrantáveis herdados e aprendidos com meus pais de origem lusa, cujas almas foram forjadas ao sabor dos ventos gelados do inverno português e ao mesmo tempo adoçados pela fé inabalável em Nossa Senhora de Fátima.


Enfim, sincera e reticente, contraditória e assertiva, introvertida e espalhafatosa, mansa e feroz, mas sempre e apesar de, feliz, e com muita fé na vida. Assim sou eu. Hoje. Amanhã? A Deus pertence.


(*) Aldora Maia Veríssimo - Presidente da AVL

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