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A cura de Nicinha


Das três irmãs Nicinha era a que chamava a atenção. Madicleia, a mais velha, era esbelta e linda! Cabelos aloirados, olhos de mel, sorriso fácil, conquistava à primeira vista qualquer pessoa. Para ela não faltavam rapazes interessadíssimos. Marinalva, a do meio, podia não ser a mais bela, mas cativava as pessoas com bom humor e delicadeza, Ah! E tinha olhos verdes que para atrair o sexo oposto são fundamentais! Manicila, Nicinha, a caçula, não era nada diante das outras. Gorda, baixa estatura, olhos esbugalhados e hirsuta nem parecia ser do mesmo sangue das irmãs. Sorumbática e mal criada afastava as pessoas de seu convívio. Sempre fora assim desde a infância e na puberdade piorara muito.


Foi nesta fase que, pela primeira vez, a doença se manifestou na menina. Logo após a menarca em uma noite de vento e poucas estrelas no céu, Nicinha, de repente, teve uma espécie de convulsão com agitação extrema, gritos lancinantes, as mãos entortando e uma espuma saindo pela boca e nariz. O susto foi enorme e Madicleia com o novo namorado socorreram a menina a levando ao Pronto Socorro da cidade. O médico que a atendeu diagnosticou epilepsia e a medicou com fenobarbital, mas a família e os vizinhos que acorreram à casa consideraram que poderia ser até um espirito ruim que encostara no corpo da garota, já que junto com a convulsão Nicinha proferia gritos e palavras estranhas e ficava muito agressiva.


Então começou o périplo da família em busca da cura da menina. A vizinha Francisca, benzedeira de renome, várias vezes acorreu à casa do lado para benzer a doentinha. Não adiantou. Levaram Nicinha em centros espiritas, em terreiros de candomblés, em curadores famosos, em médicos clínicos, homeopatas e ortomoleculares e nada adiantou. Cada vez ela ficava mais isolada e as tais crises se repetiam mais amiúde. Medicamentos então nem se fala! Tentaram drogas da farmácia para epilepsia, crise nervosa, verminose, ansiolíticos, tentaram chás de toda qualidade, de mel com limão, de boldo, capim santo, poejo e hortelã, cataplasmas, massagens, banhos quentes, gelados, com ervas e até com cascas de frutas. O homeopata lhe indicou gotas de licopódio, mercúrio e iodo e o curandeiro lhe deu liquido da vesícula de bezerra; o pastor fez um dia de oração e jejum e o velho padre veio de longe para exorcizá-la acreditando que ela estava tomada por Lúcifer. Nada adiantou...Tudo foi feito para curar Nicinha, mas cada vez ela parecia estar pior. A última crise então foi terrível! Aconteceu bem no casamento da Madicleia; a igreja cheia de convidados, a noiva linda toda de branco e, de repente, o grito lancinante e a agitação. Roupas rasgadas, enfeites destruídos, imagens quebradas e ela entre convulsões e esgares agredindo e horrorizando as pessoas! Então a abandonaram... Não era possível a convivência! Alojaram Nicinha em um quartinho no fundo do quintal e ali permanecia fechada todos os dias. A noite eventualmente ouviam seus gritos, mas viravam na cama e o sono logo vinha. Alguns até esqueceram da menina e a cidade não falava mais nela.


Ranulfo chegou com o trem das onze horas naquela manhã ensolarada. A cidadezinha entorpecida pelo calor parecia vazia, abandonada.... Escolheu ali para passar um tempo antes de recomeçar a vida. Perguntou por uma pensão e foi se registrar na única da cidade, a da dona Rita, vizinha de esquina da casa de Nicinha. A noite, após duas ou três cervejas o homem se recolheu para repousar em uma cama limpa que há muito não via. Dormiu imediatamente e foi acordado de madrugada com gritos lancinantes que provinham da casa ao lado. Levantou-se e saiu no alpendre. Tudo quieto! Só lá no fundo do quintal viu uma tênue luz em um quartinho. A curiosidade o levou até o quintal fronteiriço e pelas frestas da porta do cubículo viu uma mulher jovem, obesa, pálida, que se contorcia na cama. O senso de solidariedade lhe fez abrir a porta que não tinha chaves e, pode, de perto, conhecer Nicinha e seus problemas, sua solidão e seus desejos.


Os dias passaram céleres, mas aos poucos, a cidadezinha começou a verificar mudanças naquela garota estranha com doença incurável e esquisita. Os gritos da noite desapareceram e a menina começou a ser vista caminhando e colhendo flores para o lado do rio. Ranulfo continuava a visitá-la todas as noites. E as pessoas, sabendo disso, começaram a espalhar que ele era um benzedor competente e que estava curando Nicinha. Muitos então foram à pensão em busca da solução de suas mazelas, mas o homem não os atendia de forma nenhuma. Revoltados com as negativas o povo começou a fustiga-lo e dizer que aquele desconhecido tinha parte com o demônio. A partir de então a vida ficou insustentável para ele naquele lugar.

Num domingo de manhã Ranulfo desapareceu e a cidade ficou abismada. Só Nicinha continuava extremamente bem. Sorrindo sempre, sem crises, estava curada. Notaram sua barriga enorme, enorme... Sua cura se mexia dentro de seu ventre!


(*) O autor é médico e membro da Academia Venceslauense de Letras

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