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Amar era assim


Amar quando jovem era muito diferente. Talvez, como o mundo se apresentava na década de 1960, nós adolescentes sabíamos que amar era saber o nome e o sobrenome dela, o nome da mãe, do pai e principalmente dos irmãos! Amar era fazer amigos na turma dela, inventar cinco ou seis motivos para encontra-la quando na verdade o motivo era um só. Importante era saber de seu cantor preferido, escolher uma música para ser só dos dois e, principalmente, era ser fiel a cada um dos seus desejos e vontades. Tomar um sorvete com groselha depois do cinema tendo antes sentado ao seu lado para assistir ao filme no lugar que ela guardava até as luzes do cinema se apagar. Amar era trocar correspondência quando distantes, ir busca-la em casa quando o fim de semana chegava e ir leva-la de volta antes das 23 horas, era descobrir os encantos possíveis pois nem todos os dotes nos eram franqueados, era pegar em sua mão e curtir o comprimento de seus dedos, mergulhar em seus olhos e , quando acontecia, vivenciar todos os segundos de um beijo! Amar também era viver no eterno sobressalto da insegurança, desconfiar do cochicho da amiga, principalmente quando seguido de sorrisos maliciosos, temer a aproximação dos meninos mais velhos, morrer de paixão sem conseguir se declarar e negar sempre, “até a morte,” o que estava escrito na testa. Então era isso: tentar conhecer a menina no exato momento em que você estava começando a se conhecer... Enfim era planejar uma vida a dois que, naquela época, devia durar toda a vida!


Hoje não consigo ver nos jovens aquele sentimento tão profundo que nos causava arrepios, que nos fazia prometer fugir dele para logo em seguida retornar a ser por ele invadidos. E o ciúme? Efeito colateral das primeiras paixões nos fazia chorar nos ombros dos amigos que por certo também tinham seus desamores, muitos em segredo. Hoje os adolescentes parecem não viver mais o sublime momento do nascimento da atração, da empatia, da conquista e do amor. Têm facilidade para tudo. O amor já não é romântico, não causa taquicardia e tremores nas mãos, o beijo, antes fonte de mel e segredos, foi banalizado e, na mesma noite, pode se beijar vários parceiros e os planos, antes tão sonhados e conversados, não duram mais do que um período de férias.


Dizem os entendidos, os modernos, que o mundo melhorou muito e que nossos jovens são muito mais independentes, conscientes e preparados para enfrentar a vida; que o amor agora é tido como algo importante e salutar, mas não tão essencial como no século passado. Não sei... Mas garanto que aquele friozinho na barriga, o primeiro beijo, o lugar guardado no cinema, o sorvete e as juras de amor foram fundamentais na estruturação de nosso caráter e na conceituação que temos hoje da família, dos filhos e, enfim, da vida que queremos e devemos ter.


(*) O autor é médico e membro da Academia Venceslauense de Letras

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