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Milton Hatoum e sua obra envolvente


Estimulado pela minissérie da globo ‘Dois irmãos’ resolvi conhecer os livros de Milton Hatoum, autor do livro que originou a série. Fiquei apaixonado pela escrita deste brasileiro de ascendência libanesa que, através de seus quatro principais romances, nos mostra nuances da vida no norte brasileiro, da convivência de imigrantes com manauaras e detalhes do amar, do sofrer e do viver de pessoas que podem estar por aqui, perto de cada um de nós.


Milton Hatoum nasceu em novembro de 1952 em Manaus, Amazonas, onde viveu parte de sua infância e juventude e de onde extraiu muitas das cenas de seus romances. Na década de 1970 morou em São Paulo onde se formou em arquitetura pela FAU (faculdade de arquitetura e urbanismo da USP). No entanto seu pendor literário o levou à Espanha e depois a Paris onde por 3 anos estudou literatura comparada na Sorbonne. Autor de 4 romances premiados, suas obras já foram traduzidas em 12 línguas e publicadas em 14 países. Em 1989 seu livro “Relato de um certo oriente” ganhou o prêmio Jabuti para romances, em 2000 o livro ‘dois irmãos’ ficou em terceiro lugar no prêmio Jabuti, em 2005 “Cinzas do Norte” ganhou o prêmio Portugal Telecom e o Jabuti, em 2008 publicou “Órfãos do Eldorado” que, na minha opinião, fecha o ciclo dos romances que revisitam o passado, quer da cidade de Manaus, que teve seu esplendor no início do século XX com a borracha e depois foi fenecendo até se transformar em um “arremedo” de cidade durante os anos 60, quer revendo os pequenos grandes problemas das famílias que, como em qualquer lugar e momento, ocupam o nosso imaginário. Em “dois irmãos” por exemplo a saga de Yaqub e Omar , o caçula, demonstra com vigor a intimidade de uma família libanesa e a disputa entre os irmãos gêmeos, um disposto a vencer através do trabalho e o outro querendo e levando uma vida de ócio e luxúria. Protegido pela mãe Rana que, desde o berço, o considerava uma criança frágil e odiando o pai Halim que exigia dele disposição e luta Omar nos mostra o lado boêmio e inconsequente da vida enquanto Yaqub que foi mandado para o Líbano, onde passou até fome, e depois foi para São Paulo onde venceu como engenheiro nos mostra que, apesar das conquistas, guarda em seu coração mágoas que precisam ser resolvidas; tendo como narrador o filho de uma “cunhantã”, índia adotada pela família, que busca saber quem é seu pai entre os gêmeos , dois irmãos nos envolve de tal maneira que, em seu término, sempre queremos mais.


Os outros livros também nos apaixonam e, dentre eles, “Cinzas do Norte” nos transporta para o relacionamento familiar e nos mostra a decadência de uma família em virtude da falta de diálogo entre pai e filho, aliás, tão comum nos dias de hoje.


Agora, há poucos dias, Milton Hatoum lançou um novo livro: “A noite da espera”. Este não está mais ambientado em Manaus, mas sim em Brasília e o romance transcorre durante os anos mais duros da ditadura militar com o protagonista vivendo o drama da luta contra o regime de exceção. Milton Hatoum é isto. Um escritor moderno, de estilo ágil, perfeitamente entrosado com seu tempo, o nosso tempo. Merece ser lido.


(*) O autor é médico e membro da Academia Venceslauense de Letras

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