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Velhos amigos


Sabia lidar bem com a solidão. Afinal crescera, ficara adulto e envelhecera de forma solitária. Filho único com pai ausente já que o velho, médico, vivia mais para a profissão do que para a própria família, tinha na mãe a companheira ideal, companheira que lhe ensinara inclusive, desde sua tenra idade, a paixão pelos livros e pela literatura. Com a mãe conheceu Hesse, Sartre, Tchecov e Jorge Amado, leu com atenção Eça e Machado, “deglutiu” através de muitas noites em claro Balzac, Joyce e T.S.Elliot. Durante algum tempo considerava que ela era a única e suficiente companhia. Não se importava nem mesmo que ela se dedicasse só aos livros. Talvez por isso nunca se incomodasse muito com outras pessoas, com relacionamentos. Na verdade durante toda a vida tivera dois mais profundos. Apenas duas pessoas, fora a mãe, tiveram certa importância em sua existência. Na mocidade, na faculdade de medicina, conhecera Yvette, assim mesmo como na obra de Maupassant, e como no conto, apaixonado pela pele clara e delicada, pelos olhos verdes e pela sensualidade da pequena se entregara totalmente àquela paixão sem perceber que, aos poucos, ela se afastou e desapareceu no turbilhão de sentimentos que o envolveu de tal forma que, aos pedaços, o jogou na mesa do psicanalista. Pela frustração com Yvette, pelo fato de ter se entregado de forma tão intensa, tão subserviente, tão profunda e ter recebido em troca, segundo suas conjecturas, enorme traição e desdém passou a odiar as pessoas e escolheu a patologia como sua especialidade ao se formar em medicina. Assim não precisaria ter contato com pacientes, o microscópio e os tubos de ensaio seriam suas companhias definitivas. Antes, na meninice, no ginásio, Abel tinha sido seu irmão, mais que isso, sua alma gêmea, seu “alter ego”, seu cúmplice, seu comparsa. Tinham se conhecido no inicio do ano quando as aulas começaram e rapidamente descobriram entre si tantas afinidades que, logo, já eram inseparáveis. Estudavam juntos por longas horas, brincavam nos momentos de folga, o futebol de botão a paixão de ambos, dormiam com frequência um na casa do outro e houve um momento em suas vidas em que concordavam plenamente que jamais iriam se separar. Nas noites de lua cheia, deitados de costas no gramado da frente da casa, envolvidos pelo perfume da “dama da noite” que emoldurava o portão de entrada, davam asas à imaginação, Abel sonhando em fazer arquitetura e se transformar em escultor e ele, Raul, pensando em seguir a profissão do pai, tão ausente e ao mesmo tempo, encravado em seu íntimo, tão idolatrado. Sonhos da infância que parecem eternos, mas que, subitamente, se vão como flocos de nuvens no firmamento. Alguns anos depois o pai de Abel foi transferido para Curitiba e, sensação inequívoca de morte, os amigos aos prantos se separaram. Raul teve uma dor tão violenta que pela primeira vez em sua vida precisou do atendimento médico do pai. Se não fossem os livros teria enlouquecido. O tempo, inexorável, passou e quarenta anos se foram pelas esquinas da vida...


Na casa de repouso, no abrigo de velhos, Raul divide seu quarto com outro ancião. Embora isto o incomode um pouco tem sorte porque o companheiro, com sequela de acidente vascular cerebral, não fala e pouco se move. Assim, pode se dedicar às suas leituras sem muita perturbação. No entanto de uns tempos para cá tem sentido, nem sabe por que, certa solidão. Talvez o seu ingresso no asilo tenha de certa forma contribuído para esta sensação. Conviver com pessoas decrépitas, senis e, na maioria das vezes, esquecidas, parece ter mexido com este sentimento que quase não habitou sua alma. Não consegue mais permanecer por muito tempo enclausurado, precisa conversar com alguém, fazer alguma coisa coletiva, social. Pura sorte o aparecimento de um computador na sala de estar do abrigo com ligação à internet. No começo arredio agora Raul não consegue ficar um dia sequer sem navegar pelas páginas virtuais. O problema é a limitação do tempo de uso da máquina por que ela tem que ser dividida com as outras pessoas e existem umas velhotas que usam o tempo para jogar “paciência”. A espera o impacienta. Ainda mais agora que através do Google conseguiu localizar Abel lá em Curitiba. Nossa! Será possível? O amigo de outrora, o seu confidente, a sua alma gêmea, vivo e se preparando para fazer uma exposição de suas obras, um vernissage de suas esculturas num local lindo, cheio de flores e passarelas, verdadeiro jardim botânico. O velho médico começa a imaginar um encontro com o amigo. Sim. É possível... Tem umas economias escondidas num livro falso em sua estante e poderá justificar a viagem até Curitiba com a desculpa de que irá procurar um urologista de sua turma para tratar de sua próstata. O medo da viagem solitária se desvanece à medida que sua imaginação o transporta até Abel e ele sente dentro de si que será bem recebido. Tem muitas coisas a contar ao amigo de infância: precisa lhe dizer que participou do movimento estudantil nos anos 70 levando à prática seu sonho de liberdade e justiça social, que foi torturado na Rua Tutoia em São Paulo e que agora vê antigos parceiros da luta contra a ditadura transformados em governantes e fazendo coisas que combatiam no passado, que a sua solidão foi mitigada pela dedicação ao trabalho e que embora ela muitas vezes lhe doesse tanto tinha sempre a esperança de um dia encontrar o velho amigo o que, por certo, encerraria a terrível sensação de se estar só.


O balanço do ônibus na chegada a Curitiba o acorda. Sobressaltado. Sonhos durante a viagem o tinham perturbado: sonhava com solidão e com a dor que ela agora lhe proporcionava. Não, não queria mais viver só. Não queria mais voltar ao abrigo. Ao acordar, no entanto, fica aliviado porque sente em seu íntimo que será muito bem recebido por Abel e que por certo será convidado a morar com ele, ou, no mínimo, a passar uma longa temporada com o velho amigo. Procura no bolso a anotação do endereço do vernissage e tem dificuldade para encontra-la. Isto tem ocorrido com frequência: esquece os acontecimentos recentes e se lembra à perfeição das coisas do passado. A ansiedade parece que o deixa mais confuso e desnorteado e assim, nem se lembra de que não tivera respostas à sua tentativa de entrar em contato com Abel provavelmente porque o amigo estivesse muito ocupado preparando sua exposição.


Curitiba como sempre chuvosa. O taxi, rápido no pequeno trânsito de domingo, logo o deixa no local do evento. Lugar lindo! Passarelas floridas bem cuidadas levam as pessoas até uma construção de vidro no alto de pequena colina. Ali, entre pequenos arbustos e flores exóticas, esculturas variadas se projetam todas com motivação religiosa. São dezenas de estátuas modernas que representam santos e cenas da paixão e dos milagres de Cristo. Uma delas impressiona vivamente a Raul: é a cena de Verônica enxugando a face de Jesus. A atitude da mulher exprimida naquela imagem transmite sensação de paz e solidariedade... Luzes chamam a atenção do velho médico: em um canto do palácio de vidro a TV entrevista o artista e por entre as pessoas que não são muitas (poucos se interessam pelas artes hoje em dia) após quarenta anos vê o amigo. Impressionante! Quase não o reconhece. Embora o nariz adunco ainda seja o mesmo o brilho dos olhos já não o é: olhos gélidos e distantes emolduram uma face soberba e prepotente e a voz com timbre efeminado não lembra, nem de longe, o som alegre e juvenil do passado. Abel engordou muito, tem os cabelos tingidos e se veste com requinte. Ao seu lado seguranças o protegem durante todo o tempo. Distante e orgulhoso Abel assusta um pouco o velho amigo.


Raul espera sentado a um canto o termino do vernissage. Para passar o tempo manuseia o programa do evento em cuja capa está a foto da estátua de Verônica, a que mais marcou o médico. Finalmente ele pode se aproximar do artista. Chega exultante e lhe fala da infância e do tempo em que eram inseparáveis, dos jogos de botão e das noites de sonhos, do perfume da ‘dama da noite’... Decepção aterrorizante. Abel diz não se lembrar disto e, pior, não se lembra de Raul. Frio, cumprimenta rapidamente o médico e desaparece por entre as alamedas floridas. A solidão agora é concreta e dolorida, pesada demais, triturando de forma definitiva o ânimo de Raul. O médico sai do palácio de vidro com passos trágicos e lerdos como se caminhasse para o fim. Solidão é algo envolvente e toma conta do pensamento, das sensações, da vida das pessoas. Raul não voltou mais ao abrigo de velhos. Foi encontrado morto no terminal rodoferroviário de Curitiba. Ao seu lado um programa de exposição de obras de artes e o perfume intenso da “dama da noite”.


(*) O autor é médico e membro da Academia Venceslauense de Letras

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